quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A Bicicleta

A Bicicleta

Todos os Domingos após o almoço o Chico Mantinha passava na sua bicicleta nova pela minha rua. Era uma bela bicicleta, pintada de preto com caracteres brancos, selim de cabedal com molas cromadas, guiador cromado com punhos de plástico de onde caíam  fitas também de plástico de varias cores. Farolim também prateado brilhante tal como os aros e raios das rodas. Era uma bicicleta de sonho que o Chico comprara com o dinheiro do seu labor. Naquele tempo era um artigo de luxo.Muito poucos podiam adquirir tal bem. Só os filhos dos emigrantes em França tinham também bicicleta. Mas nenhuma era como aquela, genuinamente portuguesa. As outra eram afrancesadas com cores variadas e faróis esquisitos. A bicicleta do CHICO era diferente, era aquela bicicleta que qualquer um de nós miúdos daquele tempo admirávamos e sonhávamos vir a ter uma igual. E o Chico lá no alto do seu pedestal, todos os Domingos fazia o seu passeio, vindo de sua casa, logo após a hora de almoço, vestido a rigor no seu fato escuro, camisa branca e gravata preta, sapato de verniz, passava por nós cumprimentando-nos com um sorriso orgulhoso e seguindo para um destino desconhecido.Pensei sempre que iria ter com alguma rapariga que namoriscava nalgum baile de Domingo à tarde. Um baile longínquo pois nunca o via passar de regresso, presumindo eu que voltasse já pela noite fora. O Chico Mantinha, mais velho que eu estaria na casa do 20 e poucos anos, estranhamente safara-se à tropa, coisa que acontecia com poucos da sua idade.Tinha uma profissão que nunca cheguei a saber qual Nunca foi rapaz de grandes conversas, ás vezes parava apenas para fazer um curto comentário dando resposta a perguntas de um ou outro rapaz mais velho,  sempre sobre a sua bicicleta, se as mudanças funcionavam bem, se à noite tinha boa luz, se travava bem. O Chico a tudo respondia com um curto sim e abalava para o seu destino deixando todos pensativos e admirados.Todos o respeitávamos embora sem o conhecer bem.Ter uma bicicleta daquelas só por si dava estatuto. Não era para qualquer um. E  depois a sua viagem de Domingo à tarde para local desconhecido com regresso fora de horas era para nós miúdos um mistério, um enigma agradável. Todos nós  víamos no Chico o rapaz que nós gostávamos de ser quando fossemos maiores.Eu apenas reprovava no Chico o facto de ele não ter prestado serviço militar. Para mim o serviço militar era parte importante da vida. Ir para a guerra do ultramar para mim fazia parte do meu crescimento, era complementar-me como homem normal, igual a todos os outros que eu conhecia. O Chico neste aspecto era excepção.Mas se ficou livre do serviço militar a culpa não foi dele por isso, mesmo assim ele era para mim um modelo de pessoa.O tempo foi passando e a bicicleta do Chico Mantinha continuava impecável, estimada que era pelo seu dono, continuava brilhante e limpa como se fosse comprada hoje.E o Chico foi mantendo o seu habitual e misterioso passeio de domingo à  tarde alimentando a minha imaginação, será que vai ao baile, será que tem namorada para aqueles lados, será que vai a alguma taberna beber aguardente ou será que vai visitar algum familiar distante.
Numa certa segunda feira logo de manhã cedo acordei com o ruído de um alvoroço anormal na rua.Saltei da cama curioso e fui saber o que se passava. Tinha havido um acidente durante a madrugada. Quinhentos metros após a minha casa, um automóvel chocou com a bicicleta do Chico Mantinha. O Chico morreu. O seu corpo já não estava no local, mas vi a sua bicicleta, danificada também ela mortalmente, com as rodas dobradas como dois oitos, os guardas lamas amachucados, o vidro da luz da frente partido, os pneus rebentados, suja  e riscada, aquela bicicleta era agora um símbolo da morte e da tristeza que todos nós sentimos.Olhar para ela era ver o Chico morto como nunca o vi. Olhar para o que restava dela era assustador era ver a morte por ali perto. Fui-me embora daquele sítio com um aperto no peito que demorou algum tempo a passar. A bicicleta continuou no local alguns dias e eu evitei por lá passar enquanto ela lá esteve.

terça-feira, 11 de julho de 2017

PAIXÃO?

Paixão?

Madrugada alta, chego a casa a pensar.Não é normal. Costumo desligar a função pensadora a partir de certa hora . Quase a amanhecer e o meu cérebro ainda a trabalhar, não acontece todos os dias.Primeiro não estou para isso e pronto, depois já existem muitos poetas e líricos por aí a criticar a intelectualidade de cada um, quais fazedores de opiniões baratas para consumo próprio. QUANDO PARO PARA OLHAR Á MINHA VOLTA DIGO PARA MIM, NÃO, NÃO CONTEM COMIGO PARA AJUDAR.
Mas hoje desperta em mim um sétimo sentido, é que o meu subconsciente está a comunicar como se fosse um radar: "Atenção! Algo se passa... não notas nada à tua volta?"
Olá, isto é interessante e eu gosto.Talvez hoje o dia tenha sido especial.Sentir no meio de copos de vinho, de cerveja, de moscatel, cigarros, musica a vinil e vozes distorcidas, que está por perto alguém para quem estás a ser único e próprio é fabuloso.Sentir que estou energicamente vivo é saudável.Sentir que não estou só no meio de todos é excitante.Mas acreditar em nada é no mínimo discutível quando acreditar seja no que for pode ser óptimo.Estar no centro do mundo para alguém é um sentimento egoísta, mas que se lixe.Agora eu acredito em qualquer coisa, não quero saber o que é. Amor? Amizade? Tanto faz é tudo bem vindo. A fusão deste dois sentimentos é do mais extraordinário que me poderia acontecer. Eu seria de novo eu com os pés a pisar ervas daninhas, que nem sempre são natureza pouco útil.Acredito que é pureza e sinceridade.
Hoje os meus sentimentos são nobres e bons.Mas nada de auto elogios, porque amanhã não sei...
Mas... e...agora que faço aos meus sonhos? Por agora agradeço pelo bom momento e pela troca de energia.

sábado, 8 de julho de 2017

Homem

Que Vénus esteja contigo no teu sempre por sim eterno pois a vanguarda da tua imaginação precisa de ser conduzida por um ser supra no qual a tua alma se deleita de entrega e as imagens projectadas da incandescência dos teus olhos, são a força cerebral daqueles que sob o teu arco celeste deixam iluminar o seu rosto pelas tuas cores cheias de orgasmos contraídos por êxtases proibidas pelas vozes das sagradas escrituras, produzidas por esse universo fora onde a via-láctea que te obriga a debruçar-te no terraço sobre a alcova de palha com o olhar perdido nas notas musicais que a tua vista não pode evitar ouvir, te interrogas em riscos incolores de gozo por te faltar espaço para correres perigos medievais cuja história sombria de castelos destruídos pelo desejo, não são mais de que ciências ocultas na tua consciência à toa nas ondas do mar cuja interrogação levou o teu povo um dia a partir por esse globo à procura da falta e dos parêntisis que são necessários a todos para sobreviver aos tiros de raio-laser carregados de electricidades estranhas que nos ferem constantemente no mais íntimo dos nossos sentidos de umanos que ainda queremos continuar a ser.

Que os seres da grande mitologia te convidem para a cerimónia protocolar da sua reencarnação e que te autorizem a sentares-te à sua mesa e beberes do seu vinho magiar comeres do seu pão divino e se não te pedirem nada em troca aguarda tranquilamente mantém erectos os teus sentimentos e espera que o teu cérebro. se acalme e finalmente transmita as conclusões de tudo e que o final da história seja apenas na hora e não no tempo infinito da nossa memória.

Será util saberes ser o que de ti esperas servir.

De que tens medo?

A tua história não se iniciou neste tempo.Já vêem de muito longe os teus pergaminhos; a tua bíblia está oculta ainda, para que não te descubras. O sangue que te corre nas veias não é teu, não estás aqui, apenas estás cá. Mas de uma maneira ou de outra serves alguém, porque és serva de ti própria. Não tens nos músculos a força da explosão, não feres com violência, mas destróis, arranhas fundo e dóis.
Teces a tua teia lentamente, pensas e acreditas na maquinação do teu cérebro, mas falhas...

Não és humana porque estás impingida de crenças, hábitos e gostos, construídos por alguma engrenagem ambiciosa, demasiado evoluída para ter hipótese de conseguir aqui e agora algo.

Também não vales de nada porque te movimentas com muita lentidão por entre as feras. As tuas armas são apenas a indigestão que vais provocando nos cérebros atrofiados dos palermas que enganas.O teu castelo têm portas muito frágeis, mas tu no teu trono só pensas reinar, julgas não ter inimigos porque na tua guerra não existem armas. Mas então tens escudos para quê?

De que tens medo se dominas o teu harém, nada te falta e não tens ambição?Porque te confundes com o vento se és mais pesada? Porque te elevas nos balões se é cá à terra que pertences?

As ovações que recebes não são aplausos, são simples folhas secas a partirem-se debaixo dos meus pés, enquanto procurava descansar à sombra da tua árvore.Mas a tua serpente não me avisou que não comesse o teu fruto, Foi pena.



                                                                                A ti ,com todo o meu respeito